Aqui está a minha vida...

... esta areia tão clara com desenhos de andar dedicados ao vento.

Cecília Meiréles

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sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Receita do Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de Janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Dia de Natal


Hoje é dia de era bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!

E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.

É dia de Natal.

Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.

Glória a Deus nas Alturas.


António Gedeão

***

Hoje é Dia de Natal... está na hora de Ser mesmo Natal.

Feliz Natal para todos...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Quero é viver

Vou viver
até quando eu não sei
que me importa o que serei
quero é viver

Amanhã, espero sempre um amanhã
e acredito que será
mais um prazer

e a vida é sempre uma curiosidade
que me desperta com a idade
interessa-me o que está para vir
a vida em mim é sempre uma certeza
que nasce da minha riqueza
do meu prazer em descobrir

encontrar, renovar, vou fugir ou repetir

vou viver,
até quando, eu não sei
que me importa o que serei
quero é viver
amanhã, espero sempre um amanhã
e acredito que será mais um prazer

a vida é sempre uma curiosidade
que me desperta com idade
interessa-me o que está para vir
a vida, em mim é sempre uma certeza
que nasce da minha riqueza
do meu prazer em descobrir

encontrar, renovar vou fugir ou repetir

vou viver
até quando eu não sei
que me importa o que serei
quero é viver,
amanhã, espero sempre um amanhã
e acredito que será mais um prazer

António Variações

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Sossega...

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
Fernando Pessoa

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

...sou gaivota e fui sereia...


...corri pela margem
até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste...

Sérgio Godinho


Hoje, a minha mana de coração faz aninhos! Muitos porque já está a ficar velha... quase trinta!!!

Parabéns! Que a vida te continue a sorrir!

terça-feira, 24 de novembro de 2009

A arte de ser feliz

Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém a minha alma ficava completamente feliz.

Houve um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, a às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma regra: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.


Cecília Meiréles

Num comentário ao meu último post, um querido amigo, o Miguel, deu-me a conhecer um trecho deste belíssimo texto de uma das minhas autoras de eleição. Eu adoro Cecília (creio que todos sabem disso), mas não conhecia A Arte de Ser Feliz.

Aqui deixo o texto na sua íntegra. É, simplesmente, fabuloso... obrigada, Miguel.

sábado, 21 de novembro de 2009

Da mais alta janela da minha casa

[fotografia tirada da janela do meu quarto]

Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a Humanidade.

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os terá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.

Fernando Pessoa


[Hoje olhei, pela última vez, pela janela do meu quarto. Despedi-me da Primavera, da Assunção, da Jane e do Joe, da Luna e da Nina, lindos elefantes que me fizeram companhia ao longo deste último ano e meio. Aprendi tanto com eles... aprendi que seres enormes, com uma força bruta conseguem ser tão ternos quando ensinam as suas crias. Aprendi que quando um deles está frágil todos se juntam e ali ficam, como se em prece pelo seu ente querido que sofre. Aprendi que há horas para brincar, horas para aprender, horas para Ser.

Despedi-me, ainda, de todos os outros animais que conseguia ver da janela do meu quarto: dos leões, das girafas, dos lemúres, dos flamingos e dos hipopótamos. E, despedi-me também de todos os outros (aqueles que não conseguia ver da janela do meu quarto, mas que sei que estão lá, porque eram eles que me davam os bons dias, as boas noites, que me animavam com os seus cânticos...

Um dia destes, quando as fotografias já não forem suficientes para acalmarem a minha saudade, irei visitar esta grande família que, durante este tempo todo, fez parte da minha família (e estará sempre dentro do meu coração).]

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Casa Perdida no Tempo

[vista das Forcadas - Cheires]

Levaram as grades da varanda
Por onde a casa se avistava.
As grades de prata.

Levaram a sombra dos limoeiros
Por onde rodavam arcos de música
E formigas ruivas.

Levaram a casa de telhado verde
Com suas grutas de conchas
E vidraças de flores foscas.

Levaram a dama e o seu velho piano
Que tocava, tocava, tocava
A pálida sonata.

Levaram as pálpebras dos antigos sonhos,
Deixaram somente a memória
E as lágrimas de agora.


Cecília Meireles

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Fazes muito mais...

Há qualquer coisa de leve na tua mão,
Qualquer coisa que aquece o coração.
Há qualquer coisa quente quando estás,
Qualquer coisa que prende e nos desfaz.


E...
Fazes muito mais que o sol.
Fazes muito mais que o sol.
Fazes muito mais que o sol.
Fazes muito mais...


A forma dos teus braços sobre os meus,
O tempo dos meus olhos sobre os teus.
Desço nos teus ombros p'ra provar
Tudo o que pediste p'ra levar.


E...
Fazes muito mais que o sol.
Fazes muito mais que o sol.
Fazes muito mais que o sol.
Fazes muito mais...

Tens os raios fortes a queimar
Todo o gelo frio que construí.
Entras no meu sangue devagar
E eu a transbordar dentro de ti.

Tens os raios brancos como um rio,
Sou quem sai do escuro p'ra te ver,
Tens os raios puros no luar,
Sou quem grita fundo para te ter.

E...
Fazes muito mais que o sol.
Fazes muito mais que o sol.
Fazes muito mais que o sol.
Fazes muito mais...


Quero ver as cores que tu vês
P'ra saber a dança que tu és.
Quero ser do vento que te faz,
Quero ser do espaço onde estás.

Deixa ser tão leve a tua mão,
Para ser tão simples a canção.
Deixa ser das flores o respirar
Para ser mais fácil te encontrar.


E...
Fazes muito mais que o sol.
Fazes muito mais que o sol.
Fazes muito mais que o sol.
Fazes muito mais...

Vem quebrar o medo, vem
Saber se há depois
E sentir que somos dois,
Mas que juntos somos mais.

Quero ser razão para seres maior.
Quero te oferecer o meu melhor.
Quero ser razão para seres maior.
Quero te oferecer o meu melhor.


E...
Fazes muito mais que o sol.
Fazes muito mais que o sol.
Fazes muito mais que o sol.
Fazes muito mais...

Tiago Bettencourt
Canção Simples

sábado, 10 de outubro de 2009

...a caminho do mar...

Caminhos do mar
Que ao romper da alva
Desenhavam belos versos na lava
Onde o azul e esverdeado viram estrelar

Caminhos do mar
Caminhos raros e montanhosos
Caminhos profundos e ranhosos
Onde escravos nas caravelas haviam recusado

Caminhos dos sóis inconfundíveis
E reluzentes nos duros nós
À bordo, que antigamente sem voz
Os gritos dos negros eram inaudíveis...

Caminhos do mar
Caminhos dos azuis dos céus
E dos exóticos sonhos seus
Que agora os terei de amar

Caminhos do mar
Caminhos onde meu âmago
Trilhou e perdurou do amargo
Vindo dos famintos à pescar

Caminhos dos mares
Que aos humílimos pescadores
Iluminou e dos peixes ansiados de horrores
Como dos pobres de cobres quiseram azares

Caminhos do mar
Caminhos da luta à certeza
Caminhos da gentileza
Caminhos para então se amar

Caminhos do mar
Caminhos dos flamingos
Caminhos dos saborosos figos
Caminhos dos amigos do amor

Caminhos do mar
Caminhos das Acácias Rubras
Em cujas praias sem sombras
Soltavam-se letras no meu pensar...

Joséhonório

sábado, 3 de outubro de 2009

Flor

A terra amadurece
se te exalas.

João M. Ribeiro

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Rio adormecido da minha infância


"penso nas palavras que o rio me dizia
e que,
há quarenta anos,
quando era de manhã,
eu não conseguia entender."

Cal, de José Luís Peixoto.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.


As ondas quebravam uma à uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só p’ra mim

#Sophia de Mello Breyner

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

E para a vida dar a tal volta...



Estou tentando abrir um túnel na rocha bruta.



Eu sei, sei que é penoso. Mas qual é a busca que em si mesma não traga sua pena?

Clarice Lispector

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Junto ao mar...


De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

#Sophia de Mello Breyner

sábado, 25 de julho de 2009

Um Ser o Outro...


Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

Clarice Lispector

A minha saudade é assim... tenho-te a meu lado, mas não me é suficiente...

[amanhã é um dia especial para nós...]

#fotografia de Silvia

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Gosto...



dos venenos os mais lentos










das bebidas as mais fortes








dos cafés os mais amargos








dos delírios os mais loucos







Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:

E daí?


eu adoro voar!!!

Clarice Lispector

quinta-feira, 9 de julho de 2009

E se me achar esquisita...




...respeite também.
até eu fui obrigada a me respeitar.

Clarice Lispector




(c) vanesbonheur

sábado, 4 de julho de 2009

terça-feira, 30 de junho de 2009

Quero Sentir, tocar, ser...


Sou uma filha da natureza:
quero pegar, sentir, tocar, ser.
E tudo isso já faz parte de um todo,
de um mistério.
Sou uma só...

[Clarice Lispector]



(c) gloeckchen
 
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