Algo se passa, cá dentro, que ainda me custa a acreditar... estou curada. Assim, sem mais nem menos. De um dia para outro.
Sim. É... é isso mesmo.
Como?
Tudo começou há dois anos, com uma simples dieta. Milagre, a minha mãe chamou-lhe. Sim, foi um verdadeiro milagre.
Os meus amigos e familiares insistiam no coitadinha, não podes comer quase nada, eu insistia que antes assim que na cama a delirar com dores.
Agradecia e, ainda agradeço, todos os dias por ter descoberto esta dieta.
Durante dois anos, segui este regime alimentar... gostaria de dizer, religiosamente, mas tenho problemas de gula. E, por isso, de vez enquanto, lá ia eu à cama.
Os últimos meses estavam a ser um pouco preocupantes, pelo menos, para as pessoas que me rodeavam. A minha intolerância alimentar aumentava consideravelmente. A lista de alimentos permitidos diminuía drasticamente. Não sabia o porquê, mas também não me preocupava muito. O que verdadeiramente interessava é que eu estivesse sem dor.
Mais ou menos, há uns três meses atrás, o meu pai encontrou na rua, um livro. Sim... mesmo assim: na rua, no chão. Novo. Via-se que estava por estrear. E trouxe-lo para casa. Olhei para ele. Ah... eu já mandei esse livro a todas as minhas amigas, por e-mail e dizem que é interessante, mas eu nunca o li. Nem sequer peguei nele.
Nas semanas seguintes, entrava no quarto da minha mãe, lá estava o livro. Na sala, na cozinha... e até na casa-de-banho. Mas, eu olhava para ele e mais nada.
Um dia, estou no quarto das miúdas e, enquanto falo com elas, pego no livro. Abro-o à toa. Leio. Mas é isto mesmo... a resposta que eu estava a precisar, neste momento. Nesse dia, estava com um problema que eu não conseguia resolver e, por muito incrível que possa parecer, o livro ajudou-me a resolvê-lo.
Voltei a colocar o livro onde estava. Nunca mais olhei para ele.
Até que umas semanas mais tarde, voltei a dar de caras com ele. Sim, dar de caras é a expressão correcta, uma vez que ele estava na prateleira que eu estava a limpar.
Desta vez, olhei para ele com olhos de ver, diferentes dos olhos que olham. Levei-o para casa. Li-o todo. Desde a primeira até à última página.
Demasiadas perguntas, as que me ficaram na mente. Será?...
E, porque não? Se formos mesmo ver... ora: todos os grãos têm amido. O chocolate é um grão... e não nos faz mal. O arroz, tem um índice de amido altíssimo... e não nos faz mal.
Isto ficou-me na cabeça, dia e noite. Porque é que uns polissacarídeos (aka amido) fazem mal e outros não? Têm todos a mesma estrutura molecular. Pois têm. Mas alguém disse que era assim e eu aceitei. Uma outra coisa... a fruta provoca-me dores incríveis mas toda a gente que eu conheço tolera fruta... mas, no livro de Carol Sinclair, vem um alerta para a fruta: se for colhida antes de estar madura, o processo de conversão de amido para frutose pára.
Nessa mesma semana, bebi uma garrafa de leite com chocolate da Ucal. [Eu adoro leite com chocolate da Ucal]... nada.
Na semana seguinte, um pastel de nata...
Nada. De nada.
Uhm... isto é mesmo muito estranho. Até há duas semanas atrás, nem um comprimido com amido eu tolerava...
[tive que tomar um anti-histamínico por causa da rinite e nem me quero lembrar do que se seguiu....]
No dia de Natal, a mesa estava linda... como está sempre, que eu e a minha mãe adoramos passar a véspera de Natal na cozinha. Uma parte da mesa estava reservada só para mim: miminhos sem amido. Todo o resto da mesa, o normal de uma mesa de Natal: filhoses, rabanadas, sonhos, azevias, coscorões, arroz doce, aletria, bolo-rei... e um magnífico bolo de chocolate. De brigadeiro, para ser mais concreta.
Era manhã... a Ana estava sentada ao meu lado. Cortou uma fatia. Roubei-lhe a fatia e comi-a. Soube-me tão bem... todos olhavam para mim com aquela cara de coitadinha, nós entendemos-te mas e agora, como vai ser o resto da semana?
Foi bem, muito obrigada, mas não era necessário tanta preocupação.
Na noite de fim-de-ano, comi dois [dos famosos] pastéis de bacalhau da minha mãe. E chorei. Sim, os pastéis estavam mesmo bons de comer e chorar por mais, mas não foi por isso que me vieram as lágrimas aos olhos. Foi pela constatação de tudo estava bem.
Agora. Sim. Tudo bem.
O pão voltou ao meu pequeno-almoço, tal como o leite. Não, não estou a abusar. Continuo com a minha dieta, até porque eu continuo a achar que este regime alimentar é o grande e derradeiro passo para o tratamento desta e de outras doenças. Só estou a introduzir alguns alimentos porque... sei lá!
Porque quero. Porque, como eu disse acima, sofro de gula. E porque preciso de voltar a sentir-me uma pessoa normal. E porque todas as pessoas que me rodeiam estão felicíssimas pela minha cura e gostam de me ver a comer com elas, novamente.
E porque eu estou curada.
E porque eu mereço.