
No dia seguinte às eleições, o meu pai pergunta-me se fui votar. Não. Então, depois não te venhas cá queixar. Está bem.
Eu sempre gostei muito de política. A primeira campanha em que participei foi há décadas. Salgado Zenha... porquê? Sei lá... tinha onze anos. Só sei que não havia um tempo de antena, um debate, uma notícia que me escapasse. Atenta, absorvia tudo o que o meu candidato de eleição e todos os seus adversários discutiam. Na minha inocência, própria da idade, tentava compreender os diferentes pontos de vista, tentava perceber o que seria melhor para o meu país. Lembro-me de estar na escola e correr, aquando dos intervalos, para os portões para ver passar a comitiva barulhenta do meu candidato favorito.
Trinta e muitos anos depois, tudo isto me irrita... porque não consigo ver uma alternativa para o meu país. Sei que ele se está afundar... e que eu nada posso fazer.
Podias ir votar...
Poder, podia. Mas... em quem? No ano passado, foram horas e horas passadas a ver tudo o que eram campanhas, debates, programas de informação sobre as propostas dos vários partidos... e nada. Nada, nem ninguém. Este país está paupérrimo, no que diz a respeito a Pessoas credíveis com Vontade de Mudar alguma coisa. Votar em quem? Em quê... para quê?
Sempre considerei que Votar era um acto de muita responsabilidade que é mais que um Direito, é um Dever. Poderia votar em branco e mostrar a minha indignidade perante o poço em que os nossos políticos nos estão a afundar... podia.
Não, não votei. Nem em branco... nesse dia, não saí de casa, sequer.
[senti-me um pouco mal por não o ter feito, confesso... mas, depressa esse sentimento passava, porque a pergunta repetia-se: em quem?]
Uma vez que não votei, não me sinto à vontade de criticar este ou aquele partido. Este ou aquele deputado. Este ou aquele...
[até porque para mim, não há assim grande diferença entre eles]
Este país está moribundo e a classe política está-se a marimbar para isso...
E, eu... não posso reclamar. Sim, pai... não posso, porque não fui votar, já me disseste.
Mas... se há coisinha que me faz espécie são comentários como aqueles que oiço no Opinião Pública - na SIC Notícias: "Ai, coitadinho do Sr. Sócrates, que é tão bonzinho e que ninguém o deixa em paz" e tal. "Isto é tudo uma mentira para sujar a reputação do Sr. Sócrates -coitadinho - que tem feito tanto pelos portugueses"
Pois é. São estas pérolas que fazem desvanecer os poucos remorsos que, ainda, teimam em persistir por não ter ido votar. Não só os candidatos não valiam a caminhada, nem o tempo que teria de dispensar (de Sete-Rios, onde morava, a Queluz, onde está a minha mesa de voto)... tão pouco o povinho português, que insiste em andar com umas palas em frente dos olhos, tais asnos, atrás da cenoura prometida que jamais irão alcançar.